A fase em que uma criança começa a dar seus primeiros passos é um dos marcos mais emocionantes para a família. No entanto, junto com a evolução motora, costumam surgir muitas dúvidas: “É normal ele pisar para dentro?”, “O pé dele é muito chato, será que vai precisar de bota?” ou “Ele tropeça demais, isso é problema na pisada?”.
Esse é o momento em que muitos pais ouvem falar pela primeira vez sobre a Avaliação Ortopédica Infantil. A análise precoce da marcha não serve apenas para identificar doenças, mas principalmente para garantir que o desenvolvimento músculo-esquelético ocorra de forma saudável.
Neste artigo, vamos explorar a fundo o universo da pisada infantil e quando é hora de procurar um especialista.

Por que analisar os primeiros passos do seu filho?
Diferente dos adultos, o esqueleto da criança é composto por muita cartilagem e os ossos ainda estão em processo de ossificação (o processo de formação, desenvolvimento e crescimento do tecido ósseo, também chamado de osteogênese). Além disso, o sistema neurológico está aprendendo a coordenar o equilíbrio.
Quando um ortopedista pediátrico analisa uma criança de um ano caminhando descalça no consultório, o olhar vai muito além dos pés. Observa-se o alinhamento dos joelhos, a rotação do quadril e a postura da coluna. A marcha infantil (desenvolvimento do caminhar da criança, desde o engatinhar até os passos firmes) é um processo complexo.
Qualquer alteração em uma dessas “peças” pode influenciar todo o corpo. A avaliação ortopédica infantil permite distinguir o que é fisiológico (próprio da idade e que vai se corrigir sozinho) do que é patológico (que exige intervenção médica).
Quais são os tipos de pisada mais comuns na infância?
É muito frequente que as crianças apresentem variações no modo de caminhar. Conheça as principais diferenças da marcha infantil analisadas em uma avaliação ortopédica infantil.
1. Pé Plano (Pé Chato)
Quase todo bebê nasce com o “pé chato”. Isso acontece porque existe uma camada de gordura na planta do pé que esconde o arco, além de os ligamentos serem muito elásticos. Na maioria dos casos, o arco plantar (curva da planta do pé, formada por ossos, músculos e ligamentos) se forma naturalmente até os 6 ou 7 anos. O sinal de alerta surge quando o pé plano é rígido ou causa dor.
2. Pisada Pronada (Para dentro)
Ocorre quando o peso do corpo é descarregado na parte interna do pé, fazendo com que o tornozelo “caia” para dentro. Muitas vezes está associado ao pé plano e ao joelho em “X” (genu valgo).
3. Pisada Supinada (Para fora)
Menos comum em crianças, acontece quando o apoio maior é na parte externa do pé. Pode estar relacionada a um arco plantar muito alto ou a questões de rotação das pernas.
4. Marcha Intrarrotatizada (Pisar com as pontas para dentro)
Muito frequente em crianças pequenas, geralmente é causada por uma característica do fêmur (osso da coxa) ou da tíbia (um dos ossos da perna, conhecido como osso da canela) que ainda estão se moldando. Na maior parte das vezes, resolve-se espontaneamente com o crescimento.
5. Marcha em Equino (Andar na ponta dos pés)
A pisada na ponta do pé é comum no início do aprendizado da marcha. Contudo, se a condição persistir após os 2 anos de idade, deve ser avaliada para descartar causas como encurtamento do tendão de Aquiles (tendão calcâneo), fatores idiopáticos ou neurológicos.
Existe uma idade ideal para iniciar o tratamento ortopédico?
A resposta é: depende do diagnóstico obtido na avaliação ortopédica infantil.
- Prevenção: A primeira consulta com um ortopedista pediátrico deve ocorrer assim que a criança começa a andar com firmeza (entre os 12 e 18 meses).
- Intervenção Precoce: Problemas congênitos, como o pé torto congênito, são tratados logo ao nascer.
- Acompanhamento: Para casos de pé plano ou pisada pronada sem sintomas, o tratamento costuma ser o acompanhamento clínico a cada 6 ou 12 meses. Se a alteração persistir ou causar dores após os 3 ou 4 anos, intervenções específicas são discutidas.
Tratamentos modernos: O fim das antigas “Botas Ortopédicas”
Antigamente, o uso de botas ortopédicas pesadas e rígidas era a regra. Felizmente, a medicina evoluiu. Hoje, entendemos que o pé da criança precisa de estímulo e liberdade para se desenvolver. Os tratamentos modernos incluem:
- Cinesioterapia e Fisioterapia: Exercícios lúdicos para fortalecer a musculatura dos pés e melhorar o equilíbrio.
- Palmilhas Funcionais: Leves e sob medida, servem para dar conforto e alinhamento, sem “engessar” o pé. São usadas apenas em casos específicos de dor ou desalinhamento importante.
- Calçados Adequados: A recomendação atual é priorizar calçados flexíveis. Em casa, o ideal é deixar a criança descalça o máximo possível para estimular os sensores da planta do pé.
- Cirurgia: Reservada para uma minoria absoluta de casos graves ou rigidez óssea que não respondem ao tratamento convencional.

Avaliação Ortopédica Infantil: O cuidado começa cedo
Observar seu filho caminhar é acompanhar o crescimento dele em tempo real. Se você notar que ele cai com frequência excessiva, reclama de dores nas pernas ao fim do dia ou que o desgaste do sapato é muito assimétrico, não espere o tempo passar. A avaliação ortopédica infantil é uma ferramenta de prevenção para evitar problemas articulares e posturais graves na vida adulta.
Perguntas Frequentes sobre Ortopedia Infantil (FAQ)
Com quantos anos a marcha da criança se estabiliza?
O padrão de caminhada semelhante ao do adulto costuma se estabelecer por volta dos 7 anos de idade, quando o sistema muscular e ósseo está mais maduro.
Como saber se o andar torto do meu filho é preocupante?
Sinais como dores frequentes, quedas constantes, assimetria severa (um pé muito diferente do outro) ou andar na ponta dos pés após os 2 anos são motivos para realizar uma avaliação especializada.
O uso de andador infantil pode prejudicar a pisada e o andar do bebê?
Sim, o andador é contraindicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Além do risco altíssimo de acidentes e quedas, ele força a criança a andar na ponta dos pés antes da hora e pula etapas motoras essenciais, como o engatinhar, prejudicando o desenvolvimento natural dos músculos e articulações.
Sentar em “W” faz mal para as pernas ou quadris da criança?
Sentar frequentemente na posição em “W” (com os joelhos para a frente e os pés para trás, ao lado do bumbum) pode indicar uma maior flexibilidade do quadril. No entanto, se o hábito persistir, ele pode favorecer a marcha intrarrotatizada (andar com os pés para dentro). O ideal é incentivar a criança a sentar de “indiozinho” ou com as pernas esticadas.
Qual é o melhor tipo de calçado para o bebê que está aprendendo a andar?
O melhor calçado é aquele que mais se aproxima de estar descalço. Escolha sapatos com solado plano, fino e extremamente flexível (que você consiga dobrar facilmente com as mãos), biqueira larga para não apertar os dedinhos e que sejam leves. Evite calçados com saltos, solas rígidas ou cano alto estruturado.
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